LÉS-A-LÉS 2007 (9ª EDIÇÃO)
A
minha crónica do Lés-a-Lés, Para
nós, tal como para quase todos os participantes, o Lés-a-Lés começou quando saímos de casa em direcção a Arcos de
Valdevez. E digo “quase todos” porque ainda há quem leve a moto “às costas” até
ao local de início. A partida ficou, de véspera, marcada para as 07h30/07h45 e
acabámos por sair das bombas da Galp na Encarnação (Lisboa) às 08h00. Confesso
que tive receio que não conseguíssemos sair à hora combinada em virtude de
algum atraso mais substancial. Mas não. Até a Patrícia lá estava a atestar a
Majesty 400 à hora marcada. Saímos
para a Auto-Estrada e cedo tivemos consciência de que a velocidade de cruzeiro
iria ser bastante mais baixa do que havíamos previsto. Ainda assim,
mantivemo-nos juntos e até deixamos a Patrícia a comandar o pelotão. Os
percalços começaram logo a seguir à área de serviço de Santarém no início das
obras de alargamento da A.E.. Alguma gravilha na estrada assustou a Patrícia
que, ao tentar fugir, entrou na valeta e já não conseguiu de lá sair perdendo o
controlo da Moto. Valeu o facto de a velocidade ser bastante reduzida o que,
ainda assim, provocou uma ida ao hospital de Torres Novas. Após
tratarmos de recambiar a Majesty para casa, fomos ter com a Patrícia ao
hospital para ficarmos a saber que tinha levado 5 pontos na anca e um pequeno
curativo no cotovelo, além do pulso esquerdo dorido. Ainda lhe demos boleia até
à estação do Entroncamento aproveitando para petiscar alguma coisa e pusemo-nos
novamente ao caminho. Chegando
aos Arcos encontramos logo o Xuma. Fónix! que aquele gajo consegue-se ver à
distância. Trocamos cumprimentos, que ele já estava de saída, e dirigimo-nos
para o local das Verificações Técnicas. Depois
de termos passado com distinção, subimos ao palanque e tratámos de dar início
ao Lés-a-Lés propriamente dito,
começando pelo prólogo que nos tinham preparado em redor do Soajo. Que bela
zona para passear de moto. No final do curto percurso de cerca de 46 Kms, todos
nós tínhamos estampado no rosto um sorriso de satisfação. Pudera! Depois de 300
Kms de A.E.! Confesso que, se vivesse por aquelas bandas, faria questão de
percorrer de moto aquele trajecto, todos os dias, após o pequeno-almoço para
envergar aquele sorriso especial durante o dia de trabalho. A curta estadia nos
Arcos revelou os extraordinários anfitriões que são as gentes de lá. Recordei a
história, contada pela minha mãe, quando o meu pai decidiu levar, há umas
dezenas de anos atrás, numa provável última visita à terra natal, os pais de um
vizinho aqui de Lisboa e a fantástica e inesperada recepção que teve ao chegar
a tão bela cidade. Também nós fomos muito bem recebidos na Casa dos Confrades
do Espírito Santo com visita guiada, oferta de um licorzinho caseiro e muita
simpatia. Ainda antes do tão desejado descanso, havia que preparar os “leitores
de road-book” de fabrico caseiro. A
saída, no dia seguinte, sexta-feira, acabou por não ser demasiado cedo, visto
que os números das nossas equipas se situavam pelo meio da extensa lista de
participantes, pelo que pudemos dar descanso ao corpinho dorido da viagem do
dia anterior. A
estratégia, durante este Lés-a-Lés,
passava por tentar evitar os maus caminhos “fora de estrada”, que o nosso amigo
Ernesto nos tinha preparado, de modo a não estragar as nossas motinhas e
garantir que a fabulosa MT01 e a sua corajosa condutora chegariam inteiras e
apresentáveis às instalações da Yamaha Portugal, que tinha tido a gentileza de
a emprestar. As
recomendações da organização podiam ler-se logo na primeira página do “road-book”
relembrando que já não era a primeira vez que elas eram feitas. Gosto
de ler os textos que o Ernesto vai espalhando pelo “road-book” e numa das
primeiras páginas fiquei a saber que também existem plantas carnívoras em
Portugal, coisa que desconhecia por completo. Claro que não as vou poder observar
como devia mas ficará para outra oportunidade, não é? Num motorali qualquer... Ainda
antes disso tivemos o primeiro engano do percurso. Ao ler o “road-book” fui
induzido em erro, junto a um grupo indeciso, e entrei por um caminho estreito,
seguido pelo Rui. Acabámos por nos juntar aos restantes 3 elementos na Barragem
da Caniçada, meia dúzia de quilómetros depois. O
leitor de “road-book” de fabrico caseiro, tendo por base uma caixa de plástico,
cumpria a sua função quase na perfeição. Em
Tarouca, na região do Espumante, onde chegámos com algum atraso e muita fome,
foi servido o almoço. Ainda conseguimos ver o esqueleto do “porco no espeto”
mas o que nos calhou foi um pratinho com arroz, uma bifaninha, um garfo de
plástico, uma maçã, uma carcaça, um copo e um guardanapo para limpar o focinho
depois de ter passado por porco, literalmente. Ainda perguntei à senhora, que
estava a entregar a “fabulosa” refeição aos “porcos esfomeados”, como era
suposto comer a bifana e o arroz; ao que a criatura me respondeu que comesse
com as mãos. Quem olhasse para as minhas mãos, naquele instante, dificilmente
conseguiria identificar a cor da pele. A ida ao WC ainda se revelou mais
desastrosa pois nem sabão lá havia. Havia, sim, um autentico chiqueiro. Valeu o
material que trazíamos na nossa bagagem. À
saída, soltou-se a peseira esquerda da moto do Eduardo que o Rui prontamente
ajudou a reparar. O espírito de entreajuda bem patente neste grupo de bons
companheiros. Lá
voltámos à estrada, tentando recuperar algum tempo mas não sem continuarmos a encher
os olhos com a bela paisagem. A
subida ao Penedo dos Mouros, em Penalva do Castelo, é que não foi “pêra-doce”. Fonix!
No road-book podia ler-se “-Vês? Não
custou nada!”. Até parecia a conversa do Taveira, na altura de degustar o seu
prato predilecto “Dobrada na Cadeira”. Uns
quilómetros mais à frente apanhámos uma chuvada tremenda. Um autêntico dilúvio
que nos ensopou a roupa toda. Até as luvas com uma película “d-dry”
(teoricamente 100% impermeável como o “gore-tex”) da Dainese, compradas à um
ano, me deixaram as mãos completamente encharcadas. Apenas a temperatura nos
lembrava que estávamos mesmo em Junho, o que ajudou a secar os equipamentos. Chegados
a Gouveia tivemos um dos melhores momentos do Lés-a-Lés, ao entrar no edifício da Câmara Municipal. Pudemos tirar
a barriga de misérias do almoço de Tarouca e degustar umas fatias de um
fantástico pão com presunto e o famoso queijo da Serra da Estrela. Obrigado,
C.M. de Gouveia! Com
a barriguinha bem atestada e a moral em cima, voltámos à estrada para a subida
à Torre. Não cheguei a reparar na temperatura lá em baixo mas deviam estar
pr’aí uns 20ºC. Quando chegámos à Torre a Sandra nem queria parar. Olhei para o
termómetro da FJR que marcava 8ºC mas até pensei que estava avariado pois a
sensação era de 8ºC Negativos. Ainda tirámos umas fotografias, antes de
iniciarmos a descida, e lá fomos nós à procura do quentinho em direcção a
Manteigas. Mas ainda tinha que cumprir a promessa de ir dar um abraço ao
RuiFJRSantos no 10º posto de controlo e lá nos metemos por maus caminhos,
novamente, pelo meio da serra. Quando o alcatrão acabou comecei a “rezar” e
mais à frente encontrei o que temia. O caminho estava plantado com rochas que
assomavam as pontas para fora e logo ali ao lado uma ribanceira onde não se via
o fim. Estas pontas das rochas faziam a moto saltitar e o equilíbrio era
fundamental. Chamei todos os nomes ao Ernesto e confesso que tive medo por quem
ali passasse naquelas condições sem bastante experiência de condução. Ainda
assim, não houve nada de grave mas tive que ir buscar a MT01 umas centenas de
metros acima do posto de controlo. Ao chegar a este posto de controlo, foi com
muita pena que tivemos a notícia de que os alicates, que permitiam aos
controladores picar a tarjeta, já haviam sido levados apesar dos mesmos
controladores ainda se encontrarem no local pelo que lá dei um abraço ao Rui e
restantes companheiros e seguimos viagem por Unhais da Serra. Como
a noite já tinha caído e pouco iríamos aproveitar do resto do percurso
resolvemos atalhar para Marvão onde encontrámos uma boa organização no
estacionamento das motos e nas indicações para o jantar (a eterna feijoada) que
também achei fraco mas que satisfez a barriga. Por esta altura já estávamos
todos secos, com a temperatura do ar a rondar os 25ºC, mas como o cansaço já se
fazia sentir nem fui buscar a bifana (suplemento do jantar) a que tinha
direito. Lá
foi a equipa dos 5 maravilhosos em direcção a Portalegre em busca do merecido descanso. O
dia seguinte, sábado, amanheceu a prometer um dia magnífico de temperatura
amena e sem indícios de chuva. Lá
tomámos o pequeno-almoço e zarpámos em direcção a Marvão para iniciarmos a
segunda etapa deste 9º Portugal de
Lés-a-Lés voltando, depois, a descer novamente a serra de S. Mamede em
direcção a Arronches, Elvas e Espanha. A ideia não era assustar os nuestros hermanos com a hipótese da
tomada de Olivença, mas parecia que estavam nervosos com a visita de cerca de
800 motociclistas àquela localidade. Ao chegar à velhinha Ponte da Ajuda já
recebíamos a informação de que a Guardia
Civil , fazendo uso da mesmíssima técnica portuguesa do rato escondido, logo
à entrada de terras espanholas, tinha passado alguns “recibos” aos
participantes mais afoitos nas velocidades. Ao
entrar em Olivença havia polícias por todo o lado e até o road-book teve que ficar para segundo plano pois os elementos da Guardia Civil, que nos aguardavam,
apressavam-se a indicar-nos o caminho que deveríamos seguir, não nos dando
hipótese de analisar os desenhos do Ernesto. Tanto, que nem consegui ver o
monumento ao grandioso General Humberto Delgado, cobardemente assassinado por
esses “cães” da PIDE. Após
esta breve passagem em Olivença os nossos cérebros (pelo menos o meu) já só
pensavam no almoço. Ainda tivemos que engolir algum pó e transformar as motos
em barcos antes desse merecido almoço. Toca em direcção a Moura onde pudemos
apreciar um fantabulástico repasto. Desculpem lá a palavra, mas os homens e as
mulheres que nos proporcionaram aquele almoço, bem merecem este destaque. Um
espaço muito bem organizado com boa comida, em quantidade e sem espinhas. Nem
parecia que estávamos no Lés-a-Lés. E
o fresquinho que estava lá dentro a contrastar com a calor que se vivia lá
fora... Era este almoço que precisávamos no dia anterior, em Tarouca, para
vencermos a subida à Serra maior de Portugal. Lá
fomos em direcção às famosas Minas de S. Domingos e ao Pomarão, comer mais um
pouco do pó alentejano que os “motoqueiros das GS’s Voadoras” faziam questão de
nos atirar à cara. É irreal o estado em que está aquele pedaço de terra, em
redor das ruínas do que foi uma rica extracção de minério. Após
a travessia do Vascão, mais um bocadinho em off-road
e logo depois o almejado alcatrão. Quando passámos em Martim Longo começámos a
subir pela serra do Caldeirão e o andamento tornou-se bastante mais vivo, pelo
menos para os dois da frente, até ao Cachopo. No troço seguinte até ao Barranco
do Velho, numa das vezes em que olhei pelo espelho retrovisor, ainda consegui
ver o Rui a atacar as belas curvas na sua GS, tentando acompanhar as estradistas
mais velozes. Foi fantástico serpentear pela serra com a maravilhosa FJR e os
novos BT021 a ajudar à festa, ao som da Kate Tunstal, na companhia do
inseparável Eduardo. Lá
chegámos a Faro e ao fim de mais uma aventura pelo país desconhecido, mas não
subimos ao palanque sem “puxarmos as orelhas” a uma parelha de penetras que
tentavam fazer os outros de parvos. Sorrateiramente, lá íam chegando as suas
BM’s prá frente de quem esperava, respeitosamente, a sua vez de subir ao
palanque de forma a poder ir jantar e descansar. O
jantar em Faro foi outra para esquecer. Meus amigos farenses, quando pensarem
em oferecer novamente “aquilo”, avisem, que eu prefiro passar fome. Valeu
a excelente recepção dos nossos amigos Marinho, Terrinha e Lia. E ainda a mui
agradável presença da nossa Patrícia, de máquina fotográfica em punho,
registando o momento da chegada. Em
jeito de rescaldo ficaram-me na memória as péssimas refeições que nos foram
servidas, com honrosa excepção para a C. M. de Gouveia e o fabuloso almoço em
Moura. Talvez fosse boa opção deixar as comidas ao critério dos participantes,
à semelhança do que acontece com as dormidas, e reduzir os inflacionados preços
de participação. Ainda
a “atrasadisse” mental dos “motoqueiros das GS’s voadoras” enchendo tudo e
todos de pó e pedras à sua passagem e as fantásticas curvas da Serra do
Caldeirão desenhadas por quem percebia do assunto e melhor executadas. E
como este já não é o primeiro em que participo, fico com a esperança de que o
próximo Lés-a-Lés traga alguns
pormenores corrigidos. Um
grande abraço de agradecimento aos que me acompanharam em mais este passeio ao
Portugal de antigamente. Bem hajam! João
Calado